Blog entry by Marcos Aurelio

Anyone in the world
No cenário mundial, mais especificamente na Europa no século XVIII com o advento da revolução francesa e a ideia do racionalismo cientifico, pensadores como John Locke e Thomas Hobbes dão suas contribuições para o liberalismo e a constituição de Estado como legitimador e garantidor da propriedade privada. Inicia-se no século XIX, através da propriedade e a revolução industrial a divisão social do trabalho, onde proprietários dos meios de produção (matéria-prima, ferramentas e máquinas) e trabalhadores que vendem sua produção de excedentes, segundo Smith, aprimoram suas relações com objetivo de satisfazer suas necessidades cambiais de natureza humana. A apropriação das forças produtivas pela burguesia e a desigual distribuição de tudo que é produzido em sociedade, resulta no processo de dominação do trabalhador para subsistir e no acúmulo de capital pelos donos dos meios produtivos.
Smith, assim como os pensadores citados Hobbes e Locke, estruturam suas teorias em uma natureza humana. Hobbes não acredita na autonomia dos indivíduos por isso surge o Estado para conter a violência criada no estado natural. Locke desperta os princípios liberais de livre concorrência e o Estado mínimo. Smith descreve a natureza humana como propensão a troca e as vantagens da divisão social do trabalho para suprir suas necessidades.

Em divisão do trabalho, da qual derivam tantas vantagens, não é, em sua origem, o efeito de uma sabedoria humana qualquer, que preveria e visaria esta riqueza geral à qual dá origem. Ela é a consequência necessária, embora muito lenta e gradual, de uma certa tendência ou propensão existente na natureza humana que não tem em vista essa utilidade extensa, ou seja: a propensão a intercambiar, permutar ou trocar uma coisa pela outra. SMITH ( 1983, pag.73)


A divisão do trabalho implicou imensas vantagens no modo de produção, dentre elas “ o maior aprimoramento das forças produtivas do trabalho, e a maior parte da habilidade, destreza e bom senso com os quais o trabalho é em toda parte dirigido ou executado, parecem ter sido resultados da divisão do trabalho.” SMITH (1993, pag. 65). O fordismo e o taylorismo são exemplos recorrentes no século XX deste aperfeiçoamento produtivo que aparece de forma detalhada, nas linhas de montagem automotiva da ford e disseminados para outros setores industriais. Aliados as novas máquinas, as técnicas consistem em aumento da produtividade em relação as atividades e organização dos trabalhadores na produção, bem como o aproveitamento das horas trabalhadas.
A organização do trabalho se intensificou com a necessidade da expansão do mercado, que somente teria seu significado nas demandas criadas por este no intuito de viabilizar o consumo da produção excedentes dos trabalhadores. Smith defende que os donos do capital por seus investimentos deveriam ter um retorno pelos salários, estoque e um patrimônio maior que o inicial. Esquece que, segundo Marx, e ai esta a diferença da economia como ciência social, prevê os fenômenos sociais, neste caso a divisão do trabalho, resulta na divisão de classes com interesses contraditórios. Smith está focado na máxima produtividade pela relação da organização do trabalho, enquanto Marx identifica a dominação pela força de trabalho mudanças nas interações sociais de prover a própria vida.


A produção capitalista, que é essencialmente produção de mais-valia, absorção de mais trabalho, produz, portanto, com o prolongamento da jornada de trabalho não apenas a atrofia da força de trabalho, a qual é roubada de suas condições normais, morais e físicas, de desenvolvimento e atividade. Ela produz a exaustão prematura e o aniquilamento da própria força de trabalho. Ela prolonga o tempo de produção do trabalhador num prazo determinado mediante o encurtamento de seu tempo de vida. MARX (1983,pag. 211 e 212.)


O mercado e suas flutuações com base no preço efetivo “afetam tanto o valor como a taxa dos salários e do lucro, conforme o mercado estiver saturado ou em falta de mercadorias ou de trabalho (trabalho já executado ou trabalho a ser ainda executado).” SMITH(1993, pag. 113). O modo especulativo dos monopólios concentram as variações das demandas efetivas sempre em baixa, para que a escassez mantenham os altos preços e consequentemente um maior lucro. O domínio do mercado e a concentração de capital são a politica da derrubada da concorrência em beneficio da centralização do poder econômico e social. A fixação dos salários dos trabalhadores consiste em acentuar as diferenças entre estes e os donos dos meios de produção, pois enquanto o salário não sofre variação, os produtos variam conforme a demanda efetiva do mercado e em consequência o poder de compra do trabalhador é reduzido. As contradições aparecem na sujeição do trabalhador a um salário de subsistência, comparado a um “certo risco” de investimento dos empresários que dominam as regras econômicas do mercado.
A dominação do mercado pela ciência econômica antecede a dominação no âmbito social e politico, dos fenômenos de desigualdade e submissão ao sistema capitalista. A divisão do trabalho cria ordem social, segundo Durkheim, os indivíduos cada qual com sua função, se completam por meio das necessidades da sociedade como todo, “de fato, cada órgão aí tem sua fisionomia especial, sua autonomia, e contudo a unidade do organismo é tanto maior quanto mais acentuada essa individualização das partes. Devido a essa analogia, propomos chamar de orgânica a solidariedade devida à divisão do trabalho.” DURKHEIM (1999, pag. 108). Esta análise não condiz com a real situação do trabalhador, o relevante contexto, por exemplo, na revolução francesa com trabalhadores morando em lugares insalubres, barracos improvisados e um grande contingente de indivíduos que se deslocavam das áreas rurais para os grandes centros urbanos. O próprio exército de reserva de qual Marx descreve e muito bem, configura uma das condições para que se mantenha o baixo salário.
A economia como uma ciência exata parece estar em exercício da compreensão dos condicionantes dos resultados de produção e mercado, em beneficio do máximo rendimento, seja em horas trabalhadas (mais-valia absoluta) ou na otimização do processo produtivo das maquinas (mais-valia relativa) ou ainda nas variações e especulações criados pelos monopólios, esquecem-se dos fenômenos sociais criados e legitimados, a desigualdade e o caos necessários para manter o processo produtivo. A economia, ciência social, deve como principal linha de estudos, prever tendências e impactos sociais, econômicos e políticos que se relacionem com o mercado, produção e trabalho, com a preocupação e extremo rigor cientifico de identificar as relações sociais que permeiam para além dos conceitos do campo econômico, os conflitos e contradições que são determinantes para a vida em sociedade.

BIBLIOGRAFIA:

DURKHEIM, Émile. Da divisão social do trabalho. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. São Paulo: Abril Cultural, 1983. V1.

SMITH, Adam. A Riqueza das Nações: Investigação sobre sua natureza e suas causas. São Paulo: Nova Cultural, 1993.

[ Modified: Tuesday, 25 August 2020, 8:38 PM ]