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Perfil moodle Professor de Sociologia Marcos Aurélio
by Marcos Aurelio - Monday, 3 August 2020, 11:23 AM
Anyone in the world

       

 

    Ao longo do tempo o conceito de ideologia ganhou variadas versões, sentidos e significados, porém tornou-se um campo de estudo de difícil acesso diante da essencial abordagem espiritual do conhecimento, percebendo seus desdobramentos e impactos nas relações sociais, políticas, econômicas e psicoculturais. A ideologia internalizada produz e reproduz efeitos que contribuem para a dominação, a jaula psicológica emanada pelos poderes constituídos pelo campo em que atuam, ou a emancipação crítica do ser humano na constatação dos efeitos desta mesma ideologia, que precede escolhas muito mais reais e contextualizadas em relação a consciência coletiva que sofre com a influência ideológica. Vamos fazer uma psicanálise social leitor? Deixamos vir à tona o que até então estava inconsciente, tornando consciente e crítico nossas possíveis escolhas e oportunidades.

            Para entender o espírito do conhecimento e seus desdobramentos na materialidade social é importante apreendermos as nuances do conceito de ideologia, historicamente o uso deste como poder legitimo ensejou vários sentidos e significados, influenciando uma grande massa de pessoas em um dado contexto e tempo. Quando falo espirito do conhecimento me refiro à ideologia como estudo imaterial que atinge a vida social sem ser percebida, pois as ideias, perspectivas, expectativas e representações estão no plano do pensamento e como todos devem saber, os sentidos humanos não conseguem reconhecer, senão por aparato crítico com fontes de conhecimento refinadas cientificamente.

            Que tal aprendermos sobre ideologia para identificar a que tipo de influencias estamos submetidos? A realidade pode ser vista de uma maneira mais consciente e menos involuntária, como se estivéssemos guiados o tempo todo à caminhos e lugares que não escolhemos. O método psicanalítico ajuda-nos entrar no inconsciente ideológico e através de atitudes conscientes retomar o controle das decisões que nos cabe. Já parou para pensar que a ideologia pode ser um espirito obsessor decidindo e escolhendo por você?

            A ideologia como campo de estudo surgiu no século XIX na França por um filósofo chamado Destutt de Tracy. Inicialmente estes estudos envolviam o surgimento dos pensamentos e ideias produzidos nas áreas da física e da química, a vontade e o corpo biológico têm fundamento nas melhores ideias para as necessidades básicas da vida sem se perder em especulações e pensamentos que desviam do real funcionamento natural do ser humano. Neste período procuravam estabelecer relações diretas entre as ideias e pensamentos com a materialidade do corpo biológico, uma fisiologia das ideias. Os ideólogos como foram chamados, Tracy e seus adeptos por Napoleão Bonaparte, viram seus estudos sobre ideologia se tornarem pejorativos, depreciativos, significando alguém que fica no plano das ideias e não consegue chegar numa realidade concreta, ou seja, foram acusados por Napoleão de estabelecer um pensamento que servia como base para todos ao invés de o conhecimento humano fosse estabelecendo a cada contexto e tempo, suas relações sociais, políticas e econômicas.

            Nesta inversão de fatos e métodos, Karl Marx dá um caráter cientifico para o conceito de ideologia, mas especificamente no livro A Ideologia Alemã, onde aborda a falsa consciência e o pensamento dominante em cada período histórico. É nesta obra que Marx não somente inverte a dialética de Hegel, que compreendia os seres humanos como espíritos (pensamento) a intervir na produção social, cultural e econômica de concretude material, mas também relaciona intrinsecamente o processo de consciência a própria produção humana e este processo, consciência e produção humana, como explicação da realidade, existência e condição social dos indivíduos.

            Você deve estar se perguntando, o que é ideologia afinal?!!! São as ideias, a maneira e modo como nos relacionamos socialmente, ao mesmo passo nossas relações produzem coletivamente representações, ou seja, pensamentos e atitudes que reforçam nossas próprias relações. Se analisarmos que um pensamento disseminado num grupo social ou em toda uma sociedade, encontra êxito somente pela materialização no processo de produção social e este pensamento será reforçado pelas práticas sociais que produziu, encontramos aí uma ideologia, pois não basta que as ideias fiquem no plano teórico, é necessário o consentimento das ações sociais e a condução na estrutura social da ideologia implementada. A incorporação das ideias a vida, faz que indivíduos vivenciem situações e condições sociais, compreendam de forma singular o contexto que estão imersos.

            Terry Eagleton em seu livro Ideologia Uma Introdução traz questionamentos sobre o conceito que envolve poder, consciência, verdade e falsidade através de uma epistemologia etimológica discutindo o significado desses termos e como são utilizados. Para ele existe seis maneiras de definir ideologia:

1º Um processo material neutro de produção de crença e valores na vida social de cunho antropológico.

2º ideias e crenças que expressam as condições e experiências de um grupo social. Visão de mundo

3º Promoção e legitimação aqui a questão envolve os interesses, claro que interesses reconhecido em um campo de atuação da ideologia.

4º Promoção e legitimação setoriais, restrita a um poder dominante produzindo consenso e cumplicidade.

5º Ideias e crenças que legitimam grupos de interesses ou dominantes mediante dissimulação da realidade.

6º Crenças falsas e ilusórias oriundas da estrutura material do conjunto da sociedade.

            De uma maneira mais geral a filósofa Marilena Chauí define ideologia sob três aspectos: anterioridade prescreve o modo de agir, pensar e sentir; generalização: com objetivo de produzir consenso entre os indivíduos a generalização é utilizada como interesse de todos; Lacuna: a ideologia se consolida através de omissão e silêncio, oculta sua origem para não perder sua eficiência e propósito.

            É muito importante entendermos que a ideologia pode ser neutra, pois as crenças e valores socializados traduz a cultura e a visão de mundo de uma sociedade, ou dominante, reproduz interesses de grupos ou classes de dominação. Sociedades de relações mais simples como a tribal indígena tende a expressar interesses comuns a todos envolvidos, enquanto sociedade mais complexas onde o contingente populacional é maior, tende a consolidação de ideologias dominantes pela disputa de interesses e o ocultamento da origem ideológica pela difícil compreensão das múltiplas relações estabelecidas e todo o processo de produção social.  

            Na psicanálise social quando adquirimos conhecimentos e utilizamos na compreensão de nosso contexto, estamos fortalecendo nossa consciência e identidade, consolidando nossa crítica, aportando em fundamentos da realidade que sustentam as condições humanas diante da estrutura social. O inconsciente ou incognoscível, resultado da ideologia dominante, expressa através de confusões, desconhecimento e generalizações, encontra no ato de desinformar a legitimação da alienação, consenso social e a contraditória defesa dos interesses de quem nos domina. Utilizemos este conhecimento sobre ideologia como ferramenta analítica do cotidiano com o objetivo de compreender a realidade social e criar oportunidades adequadas à nossas escolhas.

 

Referências:

- CHAUÍ, Marilena. O que é Ideologia. 2ª ed. São Paulo: Ed. Brasiliense, 2006

- EAGLETON, T. Ideologia. Uma Introdução.2ª ed. São Paulo; Unesp/Boitempo, 2009.

- FROMM, Erich. Conceito Marxista do Homem. 8ª edição, Rio de Janeiro, Zahar, 1983.

- LÖWY, Michael. Ideologias e ciência social: elementos para uma análise marxista. São Paulo: Cortez, 2008.

 

[ Modified: Monday, 3 August 2020, 11:23 AM ]
 
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1-      Introdução:

            A antropologia como campo da ciência aborda temas, teorias e conceitos com uma especificidade e sensibilidade que a torna singular entre as ciências sociais. A Práxis metodológica é aplicada, questionada e situada na produção antropológica, permite aos pares e leitores a criticidade das condições, influências e interferências do autor, ao mesmo passo o rigor do método e técnicas empregadas na pesquisa se mantem balizador do trabalho científico.

            Uma das dificuldades enfrentadas pelas ciências humanas é a relação entre o pesquisador e seu objeto de pesquisa, pois o estudo envolve seres humanos e possivelmente o contato, as relações, as interações e os resultados, não gozam de uma neutralidade científica. É nesta relação entre pesquisador e objeto que a antropologia se difere da sociologia e da ciência política, a abordagem etnográfica e a observação participante aproximam e distanciam (sensibilidade antropológica) o que nos parece aspectos exóticos e/ou familiares.

            A cultura é considerada um conceito necessário e importante para as pesquisas antropológicas, na própria delimitação do campo de atuação, o antropólogo retoma, refina e discute este conceito. Essencialmente o estudo da cultura traduz conceitos de etnocentrismo, relativismo e alteridade para expressar as variações ou padrões de comportamentos, porém problematizar a maneira, modo que se analisa uma cultura, espera-se identificar as referências sem hierarquizar conhecimentos. Uma postura oposta a esta, traria depreciação a nosso objeto e consequentes problemas técnicos e metodológicos, impossibilitando a concretização da pesquisa.

            Com base nos conceitos supracitados é possível compreender uma cultura diferente em relação a nossa e ainda manter-se crítico como pesquisador? Quais implicações epistemológicas do uso destes conceitos para a pesquisa antropológica? A questão central neste trabalho é entender como conceitos de cultura, relativismo, etnocentrismo e alteridade, podem contribuir para relação entre pesquisador e objeto da pesquisa.

 

2-      Retomando Conceitos:

            A cultura como conceito central da antropologia passou por várias ressignificações ao longo da história desta ciência. Uma definição inicial e geral do conceito de cultura foi desenvolvida por Edward B. Taylor onde foi depurada por autores das várias escolas antropológicas posteriormente. Produto e produtor da cultura, o homem como ser em constante transformação e movimento, não pode ser analisado de forma estática, objetiva, fora de seu contexto.

            As orientações e sentidos dos indivíduos são compreendidos na intrincada malha de ações tecidas pelos próprios indivíduos, enquanto pesquisador da cultura, cabe ao antropólogo, decifrar os códigos que sustentam as relações de um dado grupo ou sociedade, por tanto, a intencionalidade e o recebimento de uma ação por interlocutores devem ser interpretadas em relação a cultura a qual está imersa. Para Geertz (1978, pág. 15):

O homem é um animal amarrado a teias de significados que ele mesmo teceu, assumo a cultura como sendo essas teias e a sua análise; portanto, não como uma ciência experimental em busca de leis, mas como uma ciência interpretativa, à procura do significado.

 

            O conceito de cultura é abordado sobre várias vertentes antropológicas, nos casos acima, o primeiro uma abordagem de delimitação do campo científico, enquanto o segundo uma abordagem metodológica. Devido à complexidade de variações e funções desempenhadas, a cultura é utilizada como extensão e ampliação do campo antropológico na interação com outros campos científicos como a biologia. Segundo Laraia (1986, pág.19):

A espécie humana se diferencia anatômica e fisiologicamente através do dimorfismo sexual. Mas é falso que as diferenças de comportamentos existentes entre pessoas de sexos diferentes sejam determinadas biologicamente. A antropologia tem demonstrado que muitas atividades atribuídas às mulheres em uma cultura podem ser atribuídas aos homens em outra.

 

            A cultura como campo de pesquisa foi tratada de forma generalizada e, não obstante de forma relativizada. Equivocadamente a generalização refletida pela escola antropológica evolucionista a comparação entre culturas, onde o desenvolvimento e progresso de uma cultura estava atrelada a outra. Por tanto uma cultura era o ponto de partida para chegada em outra cultura mais desenvolvida.

            Esse pensamento antropológico foi explicado com o conceito de etnocentrismo, ou seja, explicação de uma cultura com base e análise de nossa cultura. Um tratamento enviesado que serviu de base para o eurocentrismo. Aqui no Brasil autores como Gilberto Freyre tentavam comprovar para o mundo, que a miscigenação, matriz étnica brasileira, não influenciava negativamente no desenvolvimento do país, já que as ciências biológica e física divulgavam para o mundo as teorias eugênicas, que consistiam em explicações biológicas em detrimento da cognição. Por exemplo, quanto mais branco o indivíduo mais inteligente seria, indicaria pureza, sem mistura, enquanto o negro, impuro, era considerado limitado não tenderia ao progresso da civilização. “ Comportamentos etnocêntricos resultam também em apreciações negativas dos padrões culturais de povos diferentes. Práticas de outros sistemas culturais são catalogadas como absurdas, deprimentes e imorais. ” Laraia (1986, pág.76)

            A visão etnocêntrica permitiu através da antropologia, perceber que as diferenças culturais não poderiam ser compreendidas em comparação umas com as outras, mas relativa à sua própria cultura. Os europeus não podem conceber que sua cultura é mais desenvolvida que país orientais como a China, comparando sua gastronomia e hábitos alimentares que lhes possa causar espanto. A cultura como parâmetro de referência para outras culturas abona as generalizações e desempenha um papel totalitário de imposição entre grupos, sociedades e países, abrindo caminho para atrocidades sobre a humanidade.

            A necessidade de entender grupos por suas próprias culturas, modo de pensar e agir, hábitos gerados no seio destes grupos, em oposição ao conceito de etnocentrismo passou-se a tratar a cultura com o relativismo. Inicialmente a escola psicológica behaviorista abordava a cultura como respostas estimuladas pelo meio ambiente. Nisto elegia fatores biológicos e geográficos que transcendiam os aspectos sociais e culturais. As singularidades destes dois últimos aspectos não tinham autonomia para explicação das relações e comportamentos humanos. Então para o behaviorismo a cultura e o social eram respostas que dependiam de estímulos do meio ambiente. 

            A antropologia passa a defender a autonomia do campo cultural e relativizar as explicações na própria cultura estudada, questionando os determinismos biológicos e geográficos. Para Matta (1991, pág.47) :

A visão do social como plano capaz de formar-se a si próprio, tendo suas próprias regras e, por tudo isso, possuindo um dinamismo especial que é vantajoso para o observador interpretar e compreender nos termos de suas múltiplas determinações e ambiguidades.  

 

 Parece que compreender uma cultura por ela mesmo é imprescindível, ouvir o outro como informante de sua cultura, seu comportamento, seu pensamento, suas orientações e sentidos, porém como relativizar tudo? E as situações de privações e violências? A dominação? O antropólogo imerso nestes grupos ou sociedades busca a compreensão daquilo que mobiliza as pessoas ou privam-nas, deve estar atento as suas categorias de análise para que não sobreponha as categorias dos nativos.

            Na pesquisa antropológica o conceito de alteridade é muito importante na aproximação/afastamento entre pesquisador e objeto da pesquisa (o outro). A percepção do outro sobre nós reflete as relações que são estabelecidas, dialeticamente a nossa percepção sobre o outro denota a sensibilidade do antropólogo enquanto pesquisador. “A alteridade se constrói na tensão entre esses dois pólos — o muito próximo que se confunde consigo mesmo e o muito distante que se apresenta como uma espécie inteiramente nova, de uma cultura irredutível àquela do pesquisador.” Fonseca (2004, pág.211)

            O uso de classificações atribuídas por categorias de análise embasada na cultura do pesquisador pode resultar na assimilação do grupo pesquisado destas classificações e implicar em mudanças identitárias. Por exemplo uma tribo indígena percebida como povo atrasado explicada por heranças reivindicatórias e inseridas nos costumes de outros grupos brasileiros como compensação.

 

3-      Implicações Epistemológicas:

            Apesar das dificuldades da aplicação dos conceitos de cultura, etnocentrismo, relativismo e alteridade para compreensão do campo antropológico, o tratamento científico se faz necessário numa antropologia da antropologia, permitindo assim, entender os limites, readequações teóricas, atribuições de métodos e técnicas necessárias, vislumbrando o diferencial antropológico, o fazer científico.

            Pensar que os conceitos aqui abordados cumprem uma interação dialética entre a ciência e a epistemologia, pois ao mesmo passo de inferência sobre o objeto pesquisado incide diretamente a produção científica, questionamentos sobre a metodologia empregada através dos próprios conceitos aplicados. Intrinsecamente a aproximação e o distanciamento (sensibilidade antropológica) entre o pesquisador e o grupo pesquisado se movem em direção aos objetivos da pesquisa.

            A complexidade da abordagem antropológica na pesquisa requer contextualização e precisão na aplicação dos conceitos. O afrouxamento da crítica no âmbito do rigor científico e a imprecisão dos conceitos adulteram e distorcem os resultados. O isolamento ou a correlação conceitual inflexível não contribui para o êxito da pesquisa.

            Os conceitos de cultura, etnocentrismo, relativismo e alteridade contextualizados, correlacionados, conforme o objetivo que se propõe a pesquisa, pode acessar o campo estudado demonstrando problemas, relações epistemológicas e desobstruir o caminho que corrobora a práxis antropológica.

 

4-      Considerações Finais:

            Os desafios da ciência antropológica, ou seja, as contribuições e dificuldades deste campo, insere na área das ciências humanas, problemáticas e relações com outras áreas, como ciências da natureza, expandindo seu campo de atuação e relacionando fatores de ligação com outras ciências.

            A sensibilidade antropológica se configura através dos conceitos de cultura, etnocentrismo, relativismo e alteridade como precisão metodológica através das técnicas etnográfica e observação participante, de acordo com o contexto de pesquisa em um movimento contínuo e dialético, entre o antropólogo e seu objeto.

            Estudar outras culturas são viáveis diante da disposição de enfrentar todos problemas que a pesquisa antropológica submete o pesquisador. Mobilizar conceitos, atingir a sensibilidade antropológica, acessar conhecimentos produzidos na complexidade da trama cultural advém da práxis desta ciência, difícil, mas compensatório pela aquisição dos resultados.

5-      Referências Bibliográficas: 

- DA MATTA, Roberto A. Relativizando: uma introdução à Antropologia Social. 3.ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1991.

-  GEERTZ, C. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Zahar,1978.

- FONSECA, Claudia. 2004. “Alteridade na sociedade de Classes”. Família, fofoca e honra. Etnografia de relações de gênero e violência em grupos populares. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2004, p.209-228

- LARAIA, R.B. Cultura, um conceito antropológico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1986.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

[ Modified: Saturday, 25 July 2020, 9:01 PM ]