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Perfil moodle Professor de Sociologia Marcos Aurélio
by Marcos Aurelio - Monday, 10 August 2020, 11:21 PM
Anyone in the world

         

As ciências sociais tendo por tarefa conciliar a teoria e a prática, encontra dificuldades nas academias universitárias brasileiras. Problemas tão graves capazes de deslocar o cientista para a prisão do seu próprio intelecto. Não obstante seu objeto de estudo pode trazer suas principais dificuldades, seus próprios valores e conhecimentos colocados a prova no exercício da cidadania. A árdua tarefa de separar ou unir o conhecimento cientifico do conhecimento vivido de militante, questionador do contexto social que o permeia, coloca-nos em uma inconsciência frequente. Quando me vi envolvido com questões como: para que serve a ciências sociais? Quais os compromissos de um cientista? Abster-se de sua opinião no âmbito da sociedade implica realmente em um pesquisador mais ético e aplicado no campo da ciência, já que o objeto de seus estudos está no seu próprio contexto? Perguntas como estas me instigaram a conhecer o campo cientifico no sentido de encontrar respostas para a razão de estarmos fazendo ciência e como opera o conhecimento do cientista. Importante perceber que Florestan Fernandes foi um grande incentivador dos intelectuais nos difíceis períodos da ditadura até a redemocratização. Este artigo procura traçar um caminho para soluções dos problemas entre teoria e pratica, onde demonstra em três partes: o primeiro, uma abordagem epistemológica no sentido da teoria da ciência, dando contornos essenciais dos problemas científicos; o segundo, do cientista ao militante, como opera o conhecimento; e o terceiro, a ciência como mudança social. O objetivo principal é construirmos uma discussão e trazer o sociólogo para o seio da sociedade, onde acontece essa discussão. Não custa lembrar que uma visão mais focada do cientista, pode ser mais privilegiada do que a visão do senso-comum.

 

Teoria da ciência: problemas epistemológicos.

            Por que tratar de teoria da ciência neste artigo? A epistemologia como investigadora do fazer cientifico, traz os problemas do conhecimento e como apreendemos este conhecimento. O maior problema neste artigo é onde está a separação da ciência e do militante já que reside no mesmo construto intelectual (considerando o cientista e o militante como partes integrantes do mesmo individuo). O que intriga nos discursos dos intelectuais são: primeiro a imobilidade do pensamento diante das enormes questões sociais; segundo as atrocidades cometidas em nome da ciência como resposta a esta imobilidade. Em uma entrevista Florestan Fernandes critica o isolamento do cientista:

 

 “Uma grande parte dos que se formaram no exterior, especialmente em ciências sociais, foi educada e treinada segundo a filosofia da “neutralidade ética”. Por essa razão atuam como se fossem cientistas de laboratório, acham que não se devem comprometer e que o trabalho deve ser, em essência, objetivo. E é uma massa que foi educada nos Estados Unidos e na Europa para se comportar assim, valorizar um erro que considero primário. Weber, que era um liberal, não um radical ou um revolucionário, dizia que o cientista não deve se confundir com o propagandista, mas também dizia que a ciência é incompatível com a irresponsabilidade. ” Fernandes (entrevista)

 

             Não seria nenhum absurdo dizer que os intelectuais vêem a si próprios como cientistas isolados do mundo em que vivem, um teórico sem finalidade prática. Enquanto o militante é a ação pondo em prática a razão, seus propósitos não levam em conta o pensamento, mas a prática criada pela situação. Para esses críticos a opinião do cientista como construção social impede a suspensão dos seus valores na pesquisa e uma aplicação cientifica excessivamente dominante, “como a única verdade a ser seguida”.

            A confirmação das teorias por meio da experiência, acarreta transtornos teórico/prática, em se tratando desta relação intrínseca da ciência apreendendo o fato ou fenômeno. Como pode o pesquisador usar de sua experiência cientifica para exercer influencia na opinião publica? “Se temos uma boa teoria cientifica, isto é, uma teoria instrumentalmente confiável, que permita predições corretas dos fenômenos, podemos também utilizar tal teoria para dar explicações desse fenômeno e de outros que possam estar relacionados com ele. ” Dutra (2004, p. 22). As explicações cientificas tem relação segundo Dutra com a teoria e o mundo. Encontramos uma finalidade da ciência ou uma base por onde a ciência se orienta, não a reduzindo em uma única finalidade, e também não objetivamente solucionado nosso problema. Mas discernindo a ciência como explicação do mundo. Se a ciência consiste na pesquisa de nossa realidade, nossa sociedade, nosso mundo, o próprio ato de pesquisar é uma intervenção, pois a abordagem cientifica corresponde a mudanças. Temos um exemplo muito claro na antropologia, mas especificamente a maneira que se faz uma etnografia.       O pesquisador em uma tribo indígena aprende os costumes dos índios, e em um contato recíproco a presença do pesquisador com seus hábitos e costumes aguçam a curiosidade da tribo. Há uma troca mesmo que involuntária e inconsciente, do sujeito e do objeto. O que podemos considerar destes caminhos tortuosos por onde a ciência insiste perpassar? Se a ciência é condicionada a explicar o mundo através das teorias, e quem faz ciência está neste mundo, então a ciência é um processo de realimentação, a partir das buscas de suas respostas o cientista causa mudanças no mundo e em conseqüência o mundo precisa de explicações para novos fatos e fenômenos criados. Aqui se encontra esboçado a relação do cientista e seus objetos de pesquisa, a sociedade, a cultura e a política, o mundo onde nasce o pesquisador é o mesmo mundo sendo sua obra de pesquisa. Como separar o pesquisador com suas crenças e valores do objeto de pesquisa? Mesmo com uma relação estabelecida entre sujeito e objeto, teremos que salientar que o cientista nem sempre foi um cientista, seu conhecimento do mundo não se deu somente pela ciência, portanto é preciso diferenciar ciência da não-ciencia para não equivocarmos nos resultados de nossas opiniões. O rigor cientifico podem afastar-nos das imprecisões de juízos de valores e ações dogmáticas. O fazer ciência com seus métodos e instrumentalização tem que ser compreendido como um saber construído com coerência teórica, com bases conceituais e pesquisas empíricas. Nada tem haver com filosofia, metafísica e o senso comum, esta ultima se refere a opinião imediata, sem argumentos plausíveis para a sustentação daquela.

            O que difere a ciência das outras áreas do conhecimento são a observação dos fatos e fenômenos, criando hipóteses e em seguida os testes e verificação das hipóteses. A própria literatura cientifica, os métodos e instrumentos de pesquisas.

            Mesmo que a ciência desencadeie muitos problemas para sua construção, ainda assim estaremos envolvidos com procedimentos que serão submetidos a testes e a possível comprovação. É totalmente notório que o rigor científico não depende somente do método, mas também do cientista como sujeito da produção científica.

 

Do cientista ao militante: como opera o conhecimento

            Para Florestan Fernandes o conhecimento de mundo, antes mesmo de entrar em uma universidade fez parte do intelectual que o projetou para o Brasil. Sua vida tornou seu olhar sociológico mais apurado, pois questões relativas ao seu cotidiano precediam seus estudos. O contexto social que Florestan estava inserido, “encontravam dentro da cidade um nicho no qual mantinham suas pequenas cidadelas culturais e seus diferentes padrões de rusticidade. Italianos, portugueses, espanhóis, gente do interior e o imenso rol dos pobres não escondiam a sua humanidade. ” Fernandes (1994, p.125). A sociologia de Florestan Fernandes estava embasada na construção de uma sociologia brasileira, contrariando os aspectos de colonizados e no seu importante papel de intelectual na criticidade aos pensadores estrangeiros.

            Na história de vida de Florestan vimos o conhecimento do mundo em que viveu somar com o conhecimento do intelectual e posteriormente a totalidade do conhecimento ser utilizado na proposta de militante. O que quero colocar em relevo é o conhecimento como algo inseparável do ser. Florestan não pode separar seu conhecimento de intelectual do conhecimento de militante ou vice-versa. Ao mesmo passo que não pode isolar o intelectual do militante, separando como duas coisas distintas uma da outra. Seria extraordinário o cientista sem opinião, sem uma contribuição social e política, cruzar os braços para as questões mais importantes para a vida em grupo.

 

 O intelectual não deve deixar as massas abandonadas às manobras que aqui e no estrangeiro estão fazendo, visando desviar a atenção do povo do aproveitamento da guerra e do próprio massacre de seus interesses e reivindicações, facilitado às vezes por certos escritores. Os intelectuais não podem deixar de discutir concretamente as condições de vida do povo brasileiro, se quiserem conseguir qualquer coisa prática. Fernandes (1945)

 

             Para o militante não seria tão dramático quanto o intelectual. O militante a partir de sua praticidade usa suas ações em detrimento de suas causas, suas escolhas. Mas convenhamos o militante com a ampla capacidade de pensar, conseguiria articulações bem melhores, assim como resultados vindos de uma orientação cientifica. Não quero aqui colocar a ciência como verdade única e a grande solucionadora de problemas. O que compete falar é um individuo com formação cientifica com seu amplo campo de visão, difere de outro cujo se encontra na alienação social das reivindicações. Mas importa sabermos que o cientista necessita da prática do militante e o militante precisa da teoria do cientista.

 

O militante Florestan Fernandes tinha uma forma bastante peculiar de explicitação de sua atuação: ele próprio se definia como sociólogo e militante socialista. Mas era sobretudo como acadêmico, como docente e como pesquisador da sociologia, a qual ele definia, à moda clássica, como a “consciência crítica da sociedade”, que Florestan estabelecia a ponte da teoria com a pratica. Camacho (p.69)

 

            O que está em jogo é o rigor cientifico de um lado e a prática vivência de militante de outro. Uma ciência neutra seria ideal, mas sobre todos os problemas que foram retomados pela epistemologia, estaríamos caminhando em um campo perigoso. Como havia mencionado anteriormente a realimentação entre ciência e militante traduz um conhecimento que vai do teórico ao prático e do prático ao teórico. As pesquisas no campo social, político, econômico e cultural ajudam a sociedade compreender a si mesma.

 

Conclusão:

            Este caminho que pretendi traçar, entre ciência e militância, teoria e prática, abre questionamento para futuros estudos e desmistifica a apatia intelectual diante dos problemas do mundo. Aqui vimos que não serve de argumento o cientista isolado do seu mundo sob a acusação de tecnocrata ou abster-se de seus argumentos intelectuais sobre o julgo do poder da ciência. O que incide sobre a ciência são os juízos de valores e suas crenças como verdade única. Isso pode ser corrigido com o rigor cientifico, mesmo porque não se faz ciência sozinho. A produção cientifica é orientada e divulgada no campo acadêmico. Em seguida são corrigidas pelo amplo debate e reuniões que precedem.

            O militante por sua vez, impõe sua pratica a realidade social. Os movimentos sociais são exemplos da dinâmica das mudanças que influíram e influi a sociedade. Compõe as relações de forças entre Estado e Sociedade, conquistando o espaço das mulheres, dos negros e da classe proletária. Ainda depende de muita luta e conquista para reparar as injustiças que foram impostas pelos governos autoritários. Esta prática deve ser auxiliada pelos intelectuais, construindo uma visão recíproca de intervenção na sociedade, resultado de uma democracia de inclusão.

 

 

Referências

 CAMACHO, Timóteo. Florestan Fernandes e as ciências sociais no Brasil. [sol.]: [s.d.].

 

CANDIDO, Antonio. A condição de sociólogo. In: CANDIDO, Antonio. Florestan Fernandes. São Paulo, Fundação Perseu Abramo, P. 9-16.

 

DUTRA, Luiz Henrique de Araujo. Introdução a teoria da ciência.    2. ed Florianópolis, SC:  Ed. da UFSC,  2003.   150p.

 

 

FERNANDES, Florestan. “Ciências Sociais na ótica do intelectual militante”. Estudos Avançados,São Paulo [USP], v. 8, n. 22, p.123-138, set-dez, 1994.

 

 

FERNANDES, Florestan. Que tipo de Republica? São Paulo:  Brasiliense,  1986.

 

 

FERNANDES, Florestan. A responsabilidade da inteligência. São Paulo: Folha da Manhã, 1944. Disponível em : <http://lastro.ufsc.br/?page_id=1299> . Acesso em: 28 de nov. 2010.

 

 

FERNANDES, Florestan. As tarefas da inteligência. São Paulo: Folha da manhã, 1945. Disponível em:<http://lastro.ufsc.br/?page_id=1299> . Acesso em: 28 de nov. 2010

 

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FERNANDES, Florestan. Entrevista de Florestan Fernandes. São Paulo: Folha da manhã, sd. Disponível em: <http://lastro.ufsc.br/?page_id=1299>  . Acesso em : 28 de nov. 2010.

[ Modified: Monday, 10 August 2020, 11:21 PM ]